sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA INFANTIL PARA A FORMAÇÃO DA CRIANÇA*

"O mundo é um livro sem texto, criado a partir da palavra. Dizendo-se faça-se a luz, a água, a terra, o caos se curou. Livro sem texto onde me vejo elaborando orações, apaziguando as imensas emoções percebidas nesse mar de linhas e horizonte de eternas leituras. Desde o início em que me lembro, leio ininterruptamente suas páginas, recorrendo a todos os meus sentidos, acrescentando ainda o fantasiado, na tentativa de me acalentar frente a tão imenso mistério. E sobre esse remoto livro sem texto – invenção original primeira – busco atribuir significado a tudo que ultrapassa meu pouco poder. Freqüentemente, incapaz de decifrar os enigmas, recorro ao imaginário, resgatando elementos para me proteger diante de tamanha intensidade. E só a palavra me inscreve. "(QUEIRÓS, 1996: 23)

Esse é o início do texto “Ouvir Histórias… Ler o mundo”, do escritor Bartolomeu Campos Queirós. Nele, Bartolomeu compara o mundo a um livro sem texto criado a partir da palavra. Diz que desde o início lê ininterruptamente suas páginas buscando atribuir significado a tudo que ultrapassa seu pouco poder.

O texto ilustra bem o papel que a literatura desempenha na vida da criança. Bartolomeu relata seus primeiros contatos com a palavra, sua relação com as histórias que ouvia – no caso, seus primeiros contatos com a literatura,no caso, a oral.

Começa falando da leitura do mundo (muito anterior à da palavra escrita), mais especificamente da complexidade da tarefa da criança em compreender/ler o mundo cujos significados ela precisará construir ao longo de toda sua vida: “Nascer foi receber, sem aviso prévio e de uma só vez, todo o livro onde o firmamento está ilustrado com estrela, sol, lua…” (QUEIRÓS, 1996: 23) e conta como foi “legendando” o “livro sem texto”, no caso, através dos contos que ouvia: “cada história me trazia novos entendimentos. Elas clareavam meus jovens pressupostos”. (QUEIRÓS, 1996: 24)

Um dos papéis da literatura é ajudar a criança a compreender o mundo e a si mesma, a construir sentidos para a vida. Lidando com a imaginação, com a fantasia - faculdades que a criança domina bem - e contando com o arranjo artístico da linguagem, a literatura fala diretamente ao inconsciente da criança, explicando para ela coisas que não conseguiria entender de outra forma. A história de Joãozinho e Maria, por exemplo, pode mostrar à criança que ela é capaz de enfrentar (e vencer) o medo; que, mesmo estando numa situação difícil, com inteligência e discernimento ela poderá achar uma solução.

Através da literatura, a criança entra em contato com emoções, sentimentos e questões existenciais: “em suas narrativas afetuosas eu descobria o contraditório, o medo, o desejo, o ódio, a insegurança, sentimentos comuns a todos nós”. (Queirós, 1996: 24). E, de acordo com o escritor Ricardo Azevedo , esses são assuntos “sobre os quais não tem cabimento dar aula”:

“… a morte, a busca do auto-conhecimento, a amizade, a alegria, os afetos, as perdas, o desconhecido, o imensurável (o gosto, o prazer, o amor, a beleza etc.), a busca da felicidade, a astúcia, o ardil, os sonhos, a dupla existência da verdade, a relatividade das coisas, a injustiça, o interesse pessoal versus o coletivo, o livre arbítrio, a passagem inexorável do tempo, o paradoxal, o conflito entre o velho e o novo etc.” (Azevedo )

Outro fator importante é a questão do desenvolvimento da criatividade. A literatura explora muito a sensibilidade, a imaginação; e as crianças que crescem em contato com a literatura – tendo sua sensibilidade e imaginação exploradas – conseqüentemente se tornam mais capazes de imaginar. E imaginar é pensar, é raciocinar - o que leva tanto à criatividade quanto à criticidade.

Poderíamos falar ainda de outros atributos da literatura, mas os citados já a configuram como indispensável na vida da criança.



*Esse texto é parte do artigo "A LITERATURA INFANTIL NA FORMAÇÃO
DO LEITOR COMPETENTE", produzido por Carmélia Cândida em parceria com Denise Maria Silva Rufino como trabalho de conclusão do curso de pós-graduação "Alfabetização e Letramento", da Unincor - Universidade Vale do Rio Verde.

Um comentário:

Roberta Lima disse...

Muito bom os trechos citados e a forma com é vista a literatura para a vida da criança.